8.2.09

Sometimes we depend on other people as a mirror to define us and tell us who we are. And each reflection makes me like myself a little more.

Elizabeth in "My Blueberry Nights"


Recentemente fui aceita em um grupo muito seleto de indivíduos. O propósito: adquirir e desenvolver conhecimentos específicos, a fim de catapultar nossas carreiras ao final do período proposto. Este período não está nem perto de chegar ao fim e já tive oportunidade de perceber que, ainda que sejamos relativamente poucos – apenas 53 – e que o processo seletivo tenha sido o mesmo, existem verdadeiros abismos entre os membros.

Não me candidatei a essa experiência com a expectativa de encontrar 52 semelhantes. Na verdade, a motivação de cada um foi tão egoísta quanto possa parecer. A formação ao final nos elevará na sociedade, ou seja, não estamos buscando ombros amigos ou parceiros para o futebol, mas sim o aperfeiçoamento pessoal, o crescimento individual e tão somente isso. O que vier além disso é lucro!

Foi com essa mentalidade que encarei os cinco primeiros dias dessa pós-graduação. Muito focada em absorver o conteúdo e mostrar em sala de aula – agora chamada de plenário – que fiz críticas às informações, com todo o “peso” da minha experiência profissional. Aliás, experiência esta que poucos naquele grupo realmente possuem em quantidade. Não é necessário dizer que foi uma semana exaustiva.

O clima que paira é que somos todos muito bons. Fizemos a mesma prova e passamos pela mesma entrevista. Ou seja, temos o QI em comum e a margem entre o melhor e o pior em sala é mínima. Talvez isso tenha me iludido durante a primeira semana de aula (e aquelas que antecederam o início do curso também). Porém, a sensação de ilusão não foi imediata ao conhecer meus colegas, mas começou a tomar corpo à medida que conversava com alguns, ouvia trechos de conversas de outros e observava a todos. Com o intuito de não ser dominada por pré-conceitos, decidi posicionar todos na referência zero.

Como já era de se esperar, a real natureza humana não demora muito a aflorar e, já no fim do quinto dia, tive provas de que, se o QI havia nos acercado, uma imensidão de diferenças nos separava. Atitudes pequenas como o que fazer ao final de um dia cansativo podem ser o bastante para classificar as pessoas. Naquele quinto dia em particular, o meu estado de espírito era de exaustão, mental e física. Eu tinha apenas um destino razoável em mente: casa. Porém, na meia hora compreendida entre o fim da aula e o ronco dos carros para ir embora, percebi que meus planos eram mesmo diferentes daqueles considerados pelos outros (com raras exceções). Dentro do carro, destino em mente, passamos por uma barraca velha e, aparentemente, bem suja, sobre a qual comentaram não possuir nem energia elétrica. Mas era o único lugar que vendia bebida naquela região. Tá explicado.

De fato, não senti a menor falta da bebida e, muito pelo contrário, durante os 25km do trajeto, tive um convívio social bastante divertido com três colegas que voltaram no mesmo carro e suportaram o mesmo engarrafamento que eu. Havia ali uma nítida sintonia, que permitiu entrosamento rápido e troca de idéias que se espelhavam entre si.

Durante as próximas 24 horas, nem me passou pela cabeça o evento no boteco sujo e sem luz, quando recebi – não, recebemos, o grupo inteiro – um email que dizia:

“Quem foi ontem sabe o que aconteceu. Quem não foi, perdeu.”

Ao final do email, as sensações eram um mixto de pena, repulsa, inveja e ofensa. Realmente, não sei e, provavelmente, nunca vou saber o que aconteceu, mas... e daí? Será que aconteceu algo digno de menção e, se aconteceu, será que realmente me cabe saber? Será que me acrescenta algo? Será que me importa? Afinal, se eu não estava lá é porque tive motivos para estar acolá e, se estava acolá, é porque outra coisa me interessava mais. E ainda, quem não veio comigo também não sabe o que aconteceu durante nosso pequeno bate-papo no congestionamento.

Mas a pergunta permanece – e daí? Pena e repulsa são facilmente explicáveis:
- Pena dessa gente que deposita no álcool a fonte de tanta alegria;
- Repulsa pelo local da reunião, onde não há luz e, posso aposta, nem água corrente.

Agora, por que inveja e ofensa? Meu chute é que meu lado curioso e fofoqueiro se ressentiu por não saber dos fatos. Não ter podido conviver com aquelas pessoas e fazer parte do grupo durante alguns instantes. Seria o grupo ideal? Não podemos afirmar, mas o convívio poderia dizer. Nossa, mas tem muito convívio pela frente... Então, por que ofensa? Ah, sim, esse é bem fácil também, mas o mais injustificado. Me senti ofendida pelo uso do “perdeu”. Aquela expressão me levou por caminhos que provocaram sentimentos de tolice, de bobeira, de perda, literalmente. Ora, mas o que foi que perdi? Afinal, quem nada tem, nada perde! Apenas não ganhei, talvez, mas o que foi que perdi? Não posso me considerar menos esperta por não ter ido a este evento, afinal, tinha livre arbítrio e, por motivos já bem dissecados, optei por outro caminho.

Ainda assim, com toda essa análise, a mensagem pegou na veia. Rapidamente, apaguei o email, tirei aquele atestado de mané da minha frente e foquei em algo mais interessante. E então vejo que o maior mané dessa história é justamente o autor daquele email, pois não há atitude menos notável que espalhar para todos no grupo, que mal começava a se conhecer, uma mensagem superficial, com tão pouca informação nem razão de ser. Até agora não vi propósito em divulgar aquele texto, nem da perspectiva social, nem da técnica, científica ou mesmo da “marketeira”!

Uma total perda de tempo do autor e dos 52 leitores que a receberam. Mas rendeu esse post!