23.7.09

Naufrágio - A Série (2) - Parte 2

... opa, não era uma tábua. Deve ter sido uma miragem, ilusões de uma mente perdida em alto mar, sob efeito da insolação, da falta de nutrientes, do esforço constante e inútil para se manter na superfície da água.

Ela agora tenta se convencer de que a melhor estratégia é, afinal, parar de nadar e simplesmente esperar até que passem outras tábuas, pneus velhos, pedaços de carcaça das embarcações que por ali flutuam há dias... anos...

18.7.09

Naufrágio - A Série

Nota de esclarecimento

"Naufrágio - A Série" surgiu da experiência recorrente de apoiar-se na primeira tábua que passa. São pequenas histórias, pequenas mesmo, do sofrimento gerado pela busca de tábuas soltas em um oceano... Pela confiança depositada nessas tábuas que, ora passam, ora nem sólidas são... Se desfazem com o vai-vém das ondas.

Acima de tudo, "Náufrago" é uma súplica ao inconsciente, para que tire férias por um tempo e desligue a fábrica de expectativas, interrompa toda a produção de ilusões e visões de um futuro distante.

A praia existe. Ela só não pode ser vista ainda. E não são tábuas que darão a sustentação necessária para avistar esse horizonte.

Naufrágio - A Série (2)

Grito de Socorro

Sexta-feira – Exausta da semana, mas com vontade de quem quer celebrar a vida, dividir isso com amigos e apenas parar de pensar em tudo que vale algum tipo de conceito numérico ou acadêmico.

FESTA! Perfeito.

A produção foi caprichada, talvez até um pouco over, mas antes over do que under. Qualquer coisa, tinha outra festa depois dali. Mas a verdade é que ela não consegue parar de dançar, mesmo com seu modelito over, já todo suado. As sandálias foram deixadas debaixo da mesa e a sujeira nos pés não combina nem um pouco com o modelito. Paciência.

Ela, detalhista como sempre, repara na presença relativamente constante nas rodinhas de dança. Tenta entender os movimentos, as preferências posicionais na pista, como se a vida fosse uma estratégia matematicamente descritível. Não chegando a conclusão alguma, ela desiste ou, aliás, contenta-se com a conclusão que ele está buscando posicionar-se perto de uma outra ela. Tudo bem.

Já fora da pista, exausta, porém com sandálias novamente (pés lavados na pia, como de costume), ela percebe a mesma presença, desacompanhada. Em um movimento mais do que ousado, ela inicia uma conversa! “Você conhece a turma?” Simples assim. Ah, se a vida fosse assim simples.

Inacreditável – conversam por cerca de meia hora (ou mais, não há mesmo como saber...) sobre assuntos diversos, mas sempre algo positivo, compartilhado. Ela acha bom demais pra ser verdade. Ela sempre acha isso. Mas tenta se controlar e aproveitar a essência do momento – um bom papo, alguém que a compreende.

Sinalizações de que ela precisa ir embora começam a surgir e, pra falar a verdade, ela está mesmo cansada. Tudo bem, ela não hesita em mostrar como foi realmente agradável aquele tempo de conversa. Ele, respondendo positivamente, sugere que continuem algum outro dia. Claro, pode ser, por que não? E então... Seria uma tábua ao longe? Por favor, por favor, não me traga tábuas! Prefiro me debater em águas turbulentas que apoiar-me em tábuas passageiras. Ela parece ter aprendido o ritmo desse jogo... Dessa dança – sua paixão afinal. Mas, por favor, por favor, não me deixe morrer na praia! Fiz tanto esforço para agir naturalmente até agora! Ela conversava com aquele que justamente ela considerava perdido. Apenas um papo... Apenas uma conversa... Ela não quer tábuas, mas apenas uma onda mais amena, para poder respirar.

Trocam telefones.

Naufrágio - A Série (1)

Alarme Falso

Terça-feira – Impossibilitada de cumprir seu compromisso, ela manda uma mensagem por celular: “Não poderei ir. Vou cumprir minhas obrigações hoje para aproveitar na quinta.”

Quinta-feira – Tudo pronto para ir dessa vez. Faltando uma hora para a saída, ela recebe uma mensagem: “Hi. Hoje é quinta.” Apesar de confusa, não contém a alegria ao pensar que ele pode estar mandando um lembrete para que ela não faltasse. Ele dava valor ao compromisso com o treinamento, mas algo persistia em dar-lhe esperança de que era pessoal. [tábua avistada]“Sairei em breve.”, ela responde.

Uma hora depois, já no local de sempre, ela o encontra na chegada.

Ele: “Que mensagem louca que você mandou!”
Ela: “Louca...?”
Ele: “É, dizendo que não vinha pra estudar... Mas hoje *é* quinta...”
Ela: “Então, eu avisei que não vinha na terça pra poder vir quinta...”Ele: “Sua mensagem só chegou hoje!” [tábua afundou]

Vida nova

Wow!! Que saudade... Passei tanto tempo longe daqui. Tempo demais, dedicando-me a outras escritas. Impossível dizer por quanto tempo ficarei, mas voltei! Sinto-me em casa.

Mais está por vir...

11.6.09

As Regras do Jogo

Quais seriam as regras do jogo mais antigo da humanidade? A simples sedução... A complexa arte de seduzir e conquistar.

Parece que estava tudo nas mãos dele, o homem. Eles escolhiam aquela que mais lhes agradava, preparavam a cavalaria e atacavam com segurança, afinal, eram homens. E então, vieram as mulheres exigindo direitos. Que direitos? O direito de mandar, de ter razão? Pra que?

As mulheres agora escolhem também. E escolhem muito bem! Escolhem conscientes daquilo que querem, olhando capa, contra-capa e resenha do "livro" que estão por adquirir. No entanto, vemos por aí homens confusos, chacoalhados, privados de exercer o seu papel - de dominador.

Mas quem disse que já não poderiam dominar? Apenas agora estão lidando com uma presa com vontade própria, que pode escolher correr e fugir. Ou ainda, pode escolher seu caçador. Homens fracos, folgados, indecisos, cabisbaixos.

Pior ainda é o homem que esnoba. Aquele que sente o conforto de ser "alvo" de sua própria presa, que delicia-se no conforto da vitória inevitável e não poupa esforços quando se trata de provar o quanto é superior, valioso, desejável.

Resultado dessa inequação: mulheres perdidas, homens confusos; mulheres agressivas, homens passivos; mulheres ansiosas, homens folgados. Onde ficou a cordialidade de ser direto, sincero e decidido? Devemos colocar no livros de regras da sedução: "Proibido cozinhas em banho-maria."

E aquele que caça tem que optar por sofrer lentamente ou de maneira grosseira. Estar próximo do objeto de desejo, interagir com este, permitir que sentimentos transbordem involuntariamente, pela simples incapacidade de conter tanta dor e alegria, que se misturam em um só peito. Ou afastar-se, isolar-se daquilo que um dia trouxe a promessa de alegria, conviver com a dor minguante, mas que será sempre apenas dor.

Eu, que achava ter aprendido tanto sobre mim e esse vício que me consome, dançar, hoje sei que isso não significa nada. Quanta informação será necessária para controlar um coração palpitante? Um sorriso que não se contém? Um olhar de lado, fugitivo?

Meu sofrimento agora é dançar com ele, permitir que me conduza, me ordene, faça-me sentir única e desejada, apenas para cortar meu sonho quando pára a música. Sofrimento ainda maior é pensar que não quererá dançar comigo, que prefere se afastar.

Quais são as regras agora? Quem fala o que? O que não deve ser falado? Quando é demais falar o quanto alguém é desejado??

3.5.09

Publicamente, peço desculpas

Há muitos anos atrás, eu era inocente e ingênua.
Eu tinha armas, mas não sabia como usá-las. Talvez não soubesse nem que as possuia.
Eu brinquei com armas e o fogo destrui pra sempre minha inocência e ingenuidade.

Não que isso tenha sido ruim, muito pelo contrário, estava na hora mesmo de acordar pra vida. Mas o ressentimento existe porque essas brincadeirinhas quase nunca lesam apenas um protagonista, e então pagamos por esses erros tolos por anos e anos. Menos mal quando existe possibilidade de pedir desculpas. Mais difícil quando a ferida é funda e tudo se afasta de nós, evitando aquele contato doloroso.

Há alguns anos atrás, eu brinquei com a sorte e, ao ser contemplada com o prêmio maior, recusei.
Eu trilhei um caminho que não conhecia direito. Eu descobri como usar minhas armas da pior maneira possível - tentativa e erro.
Eu me machuquei. E envergonhei a mim mesma e aos outros, outros que me entregavam um prêmio.
O problema foi que a minha dor só se fez presente anos depois, quando aquele caminho já havia sido trilhado mais vezes e eu pude entender o que era estar lá no fim, esperando por quem vinha nele também. Eu entendi o outro lado.
Ou talvez a gente nunca entenda mesmo o que é ser o outro, mas os efeitos em mim foram fortes o suficiente para não me deixar esquecer até hoje. E já fazem anos...

São fantasmas que hoje passeiam comigo, mais quietinhos do que antes, mas ainda presentes. Eles fazem questão de me lembrar que ainda existem tantos pontos sem nó dessa vida. Pontos que, provavelmente, nunca terão um nó. Mas então por que lembramos deles? Para não cometer o mesmo erro novamente? Duvido.
Na maior parte do tempo, eu consigo ignorar o que aconteceu no passado. Mas foi o passado que me trouxe até o presente. É o presente que constrói o futuro.
E então, o que faço com essas feridas abertas?

Hoje, o meu presente gera um volume de informação que me obriga a limpar os objetos do passado, para abrir espaço para o agora. Nisso, encontro lembranças que nem sabia que eram minhas. Pequenas coisinhas que fiz questão de registrar e guardar, por terem seu valor um dia.
E agora, qual seu valor?
Estariam essas lembranças impedindo que os fantasmas encontrassem seu destino de uma vez por todas? Lembranças que me prendem ao passado, mas não para compreender o presente, se não para confundí-lo e torná-lo nublado.

Eu quero pedir desculpas. Eu quero pedir desculpas a todos que foram alvos, diretos ou indiretos, das minhas tentativas e erros. Cadê eles? Onde estão todas essas pessoas que, sem nem saber, estavam me ajudando a acordar? Puderam eles acordar também? Teriam também seus fantasmas?

Eu quero gritar para todos - DESCULPA!!! ME PERDOEM!!!

Não fiz por mal. Eu estava apenas procurando um caminho, que me levaria não sei bem onde, mas era minha missão descobrir isso também.

Eis que, como se o destino também jogasse, ao finalizar mais uma limpeza para que o presente ocupe seu espaço, tendo em mente exatamente o que eu deveria escrever aqui, a trilha sonora se encaixa perfeitamente...


"If I Could Turn Back Time"

If I could turn back time
If I could find a way
I'd take back those words that hurt you and you'd stay

I don't know why I did the things I did
I don't know why I said the things I said
Pride's like a knife it can cut deep inside
Words are like weapons they wound sometimes

I didn't really mean to hurt you
I didn't wanna see you go
I know I made you cry
But, baby

If I could turn back time
If I could find a way
I'd take back those words that hurt you
And you'd stay
If I could reach the stars
I'd give them all to you
Then you'd love me, love me
Like you used to do

If I could turn back time