29.10.08

Meus pêsames

Eu raramente vou a cemitérios. Não por medo, mas - e por isso, sim, tenho que dar graças - por falta de necessidade. Até agora, a família se mantém mais ou menos igual ao que era quando eu nasci, ou seja, vi poucas pessoas próximas a mim morrerem. Talvez, por isso, a notícia de uma morte (que não seja família, claro) e conseqüente enterro seja recebida como apenas mais uma notícia. Talvez seja a realidade urbana que nos apedreja o coração diariamente e transforma uma morte em uma simples perda. Esquecemos que é a perda de uma vida.

Hoje eu fui a um enterro. Não era membro da minha família, não era sequer conhecido meu. Era família de uma amiga. Fomos eu e outra amiga para dar suporte, seguindo a teoria de mostrar para quem perdeu que, apesar de uma pessoa ter ido, existem tantas outras que a estimam.

Recebi a notícia de manhã cedo, quando já estava na rua e começando a rotina. Mas morte é uma dessas coisas que não podem ser pensadas mais de uma vez - pára-se e tudo reorganiza-se o dia em torno daquele evento. A minha tarefa seria ir para o trabalho e lá ficar até o momento em que tivesse que sair, dando ou não satisfação, convencendo ou não de que era verdade. Por "sorte", a tarefa foi cumprida com sucesso.

Na ida para o cemitério, fui colocando o papo em dia com minha amiga, que estava dirigindo. Comentamos sobre o estado de saúde da senhora que havia morrido, como estava a família, como estava nossa amiga e amenidades de nossas vidas. Chegando ao cemitério, estacionamos e fomos em busca de conhecidos. Acredito que desse ponto em diante, tive uma sucessão de momentos de insight, possibilitados, provavelmente, pela razoável ausência de emoção em mim.

Momento: Nas capelas de velório
Dentre os rituais inventados pelo homem, o velório me parece um dos que mais precisa de revisão. Entendo que seja importante despedir-se, sofrer um pouco a perda, permitir que outros também o façam... mas que seja pouco. Apenas o suficiente para reunir as pessoas, desenvolver o sentimento de apoio mútuo e partir para os finalmentes.

Quando perdi meu avô, minha avó queria passar a noite velando o corpo. Aos 80+ anos, esta senhora queria virar a noite acordada, para depois encontrar e cumprimentar dezenas de familiares que estariam vindo para o enterro. Deu pra pescar a seriedade da coisa? De minha parte, entendo que seja um ritual de despedida da pessoa que passou boa parte desses 80+ ao lado dela, mas, dadas as condições (emocionais, de saúde, etc) esse não é o melhor momento para forçar o corpo ao extremo de suas energias. Não sei qual seria outra forma de fazê-lo, mas merece ser revisto.

Voltando ao momento de hoje então... Entramos no prédio que abriga diversas capelas, para velórios simultâneos. (Como bem comentaram, enterro é um verdadeiro negócio, um business. Mórbido, mas é.) Como não vimos ninguém conhecido, fomos subindo a escada - uma sensação de peso já começando a me invadir - e passando pelas pessoas, pelas portinhas que distingüem as capelas. Eram diversos olhares perdidos que nos acompanhavam, talvez por não termos sido reconhecidos por ninguém, talvez por estarem todos em um momento de perda mesmo, perda material e de sentido. Logo percebi a trivialidade irreal com a qual havia recebido a notícia no início da manhã.

Uma vez que conseguimos contactar um conhecido, descobrimos que o velório não havia acontecido ali e que devíamos ir direto para a entrada do cemitério. Seguimos o caminho da saída, portanto, deixando para trás olhares e lágrimas com os quais não nos identificávamos.

Momento: Na entrada do cemitério
Após breve "passeio" pelos túmulos até o portão principal, encontramos um cantinho para esperar a chegada da nossa amiga e sua família. Percebi que aquele passeio foi até bom. Estar no meio de pessoas em sofrimento é extremamente contagioso e pesado, mas estar entre túmulos de pessoas que já se foram e agora "descansam" é pacificador. Em nenhum momento comecei a pensar que estava gostando da idéia de estar em um cemitério, mas o nó que havia começado a se formar no meu estômago estava consideravelmente mais solto.

A família estava atrasada, pois o velório havia sido em casa e, com o congestionamento, não conseguiram chegar no horário marcado. Fiquei imaginando essa situação - pessoas angustiadas para ver o fim daquilo tudo, tendo que esperar no trânsito caótico de uma cidade mal administrada. Além disso, observava quem passava... Jovens, idosos, pessoas que haviam saído do trabalho, da escola, pessoas sérias, outras até felizes de terem reencontrado alguém que não viam há muito tempo. No enterro do meu avô mencionaram: "Para juntar a família e os amigos todos assim, só casamento ou enterro." Eu hoje acho que só enterro mesmo.

No meio daquilo tudo, me chamou a atenção o nível dos óculos escuros. Sem dúvida, era um enterro de classe alta. Num lugar onde todos têm a chance de serem iguais, ou seja, retornarem à terra, as diferenças insistiam em existir. O morto que era ali enterrado poderia ter o diferencial de estar em um túmulo, gaveta ou mausoléu, mas poderia ainda ter um cortejo da mais alta estirpe! Não pude fazer anotações para um estudo futuro, mas, pelo que vi rapidamente durante aquela hora que estivemos ali, meu chute seria que o nível do grupo é diretamente proporcional à quantidade de óculos escuros portados.

Eu estava sem óculos escuros.

PS: Será que certas pessoas não se permitem sofrer? Seriam os óculos escuros uma venda para terceiros, de maneira que continuem achando que tudo está bem? Que o dinheiro permanece?? Não estou nem perto do fim dos meus questionamentos, disparados pelos óculos escuros.

Momento: Durante o enterro (literalmente)
Eu tenho dificuldade pra chorar em enterros, pelo menos os que vi até hoje. Nem mesmo no do meu avô consegui chorar. Dois possíveis motivos: não morávamos na mesma cidade e não o via há um tempo; ele estava muito doente há mais de ano e sofrendo, então aquele enterro era não só uma questão de tempo, como também tranqüilizante (para todos).

Bom, estavam todos agrupados quando ouvimos uma voz pedindo licença. Era outro cortejo que estava passando, um pouco menor que o grupo que abria a passagem e, se não me engano, não havia nenhum portador de óculos escuros. Mas estavam todos ali, em procissão, expressões sérias e introspectivas. E nisso os dois grupos eram iguais.

O puxador do cortejo é uma figura à parte. Faz aquilo tantas vezes ao dia que aplica todas as regras de como atuar no trabalho para aquela função. O que mais me chama a atenção é a velocidade com que puxa o grupo para frente. No enterro no meu avô, fui designada para carregar uma coroa de flores. Talvez para amenizar a tensão, comecei a conversar com o puxador do cortejo. Nem me lembro mais do que falávamos, mas, relembrando, deve ter sido uma das conversas mais esquizofrênicas que já tive - eu, a neta que não chora da cidade grande, e o coveiro, que faz aquilo todo dia em uma cidade de menos de 100.000 pessoas. De qualquer maneira, estávamos no meio do caminho quando olhei pra trás e percebi como estávamos andando rápido. O eficiente coveiro havia apertado o passo e eu o acompanhava, distraída pela conversa. O resto das pessoas, porém, formavam uma nuvem carregada de formalidades, comom bem manda o ritual. Seguiam em passo lento, sofrido e arrastado, trazendo o caixão.

Talvez o coveiro não goste muito daquilo e queria ver tudo terminado também... Uhm...

Momento: Despedidas
Terminado o enterro, aguardamos alguns minutos para falar com outra conhecida da família e, finalmente, irmos embora. Se chorar foi difícil, saber o que dizer foi ainda mais. "Meus pêsames" sempre me parece batido e sem conteúdo. A verdade é que ninguém devia estar exigindo criatividade numa hora daquelas, mas eu queria falar algo que fosse marcar a presença, mostrar sentimento (como se a mera presença ali não fosse suficiente). Mas, como eu disse antes, morte é uma coisa que não dá pra pensar duas vezes, então me despedi com um sincero "me avise se precisar de alguma coisa".

Em um grupo de cinco, todos amigos ou parentes mais distantes da família da falecida, encontramos um caminho de saída, mais uma vez por entre os túmulos, e por ali fomos, mais uma vez trocando amenidades. Espero que essa capacidade de "quicar", ou seja, passarmos de um momento extremamente sóbrio para uma conversa sobre festas, seja um sinal positivo da força interior de cada um ali. Se não, pode ser também um escudo, uma segurança para não ser consumido pelo ar de sofrimento e perda.

Para fechar...

Ao chegar em casa, liguei o computador, pois havia dito que trabalharia um pouco mais para compensar a saída antes da hora. Porém, olhando para a tela, comecei a sentir um cansaço que me impedia de chegar ao final das frases que lia. Este cansaço logo se transformou em sono profundo e cheguei relaxar a cabeça com o olho fechado, por milésimos de segundo até que o tranco no meu pescoço me trouxe de volta à realidade. Realidade esta que preferi não desafiar - fechei tudo e me deitei para um cochilo de 15 minutos que se extendeu por duas horas.

Repassando o dia mentalmente, não lembro de ter me sentido tão cansada em nenhum momento, razão pela qual acredito que, ainda que inconscientemente, fui tomada pelo clima pesado dos eventos da tarde. E isso, por sua vez, me faz pensar que, ainda que o cotidiano urbano esteja endurecendo meu coração, a vida é mais forte que qualquer armadura, e capaz de tocar profundamente, independente da experiência adquirida.

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