A série "Devaneios" lança um desafio, comum para todos os episódios - ao final de cada texto, pergunte-se: "Onde estará a fina linha que separa a realidade do devaneio?"
(Essa série pode também ser usada como contra-exemplo daquilo pregado em "The Secret".)
Um sarau. Duas engenheiras.
Em um apartamento de dois quartos que abriga mais instrumentos do que móveis, encontram-se quatro pianistas, três violonistas, um percussionista, duas ou três cantoras, um baterista, um sósia do Santana e respectiva senhora e duas marinheiras de primeira viagem, que nada tocam (pelo menos não naquele nível) e só cantam no chuveiro.
Após trocarem algumas palavras para quebrar o gelo, acontece um entrosamento superficial com qualquer um que se interesse por entrosar-se com estranhos, ainda mais que não é possível aprofundar muito o papo musical com estas duas engenheiras. São modestas - não falam nada além da verdade, e mesmo esta, com muita cautela. Tudo é friamente calculado e sujeito a análise prévia ou posterior.
A noite flui, alguma música é tocada, bebidas são consumidas, momentos são registrados em modernos aparelhos digitais, contatos são trocados. Resta a dúvida - para que?
24 horas depois - contato feito por rede social virtual.
72 horas depois - contato feito por chat.
Como todo bom chat entre estranhos, começa superficialmente, com perguntas default. Por sorte (ou quem sabe muita força de vontade), encontra-se um ponto de conversação que permite ir além dos monossílabos. Algumas idéias são trocadas, novos encontros são propostos.
1 semana depois - o que era para ser a materialização de um novo encontro não se realiza, devido a diversos fatores que não vêm ao caso.
1 semana e 24 horas depois - contato feito por rede social virtual, como tentativa de justificar o [não]ocorrido.
Sem reposta.
Parado o contador do tempo.
Executando tarefas e atividades diárias, surge a oportunidade de um novo contato. Por mensagem de texto, rápida, curta e impessoal, informa-se o paradeiro da protagonista, que sugere um reencontro nada virtual. Eis que esse movimento é bem recebido e a sugestão, seguida à risca. Em uma tarde de domingo, passeiam lado a lado pela orla tranquila de uma baía, sob as árvores e uma brisa marítima suave.
A conversa gira em torno de fatos corriqueiros - lugares, pessoas, comidas, familiares, trabalhos, viagens - que podem ser compartilhados sem muita profundidade, nem exigem demasiada reflexão. As idéias não são vazias, apenas não tornam aquela caminhada exaustiva. Pelo contrário, ajudam a esquecer a distância percorrida, de modo que a noite cai como véu e abraça o casal, perdido em dedos de prosa.
De repente, uma corrente de ar mais frio, dessas típicas da noite à beira-mar, interrompe o passeio, alertando da hora. As frases ficam pela metade quando se olham, juntos, nos olhos.
"Por que está me olhando assim?"
"Porque percebo que é tudo que quero."
"E o que você quer?"
"Essa tarde, essa sensação, com você, o agora."
Onde estará a linha...?
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