Já disse a canção... "Você apareceu do nada... E você mexeu demais comigo."
E pára por aí.
Tanta gente aparece do nada, mas, de alguma forma, foi você que conseguiu mexer mais até agora. A triste notícia é que mexeu de uma forma confusa, desconfortável e amarga. As lembranças que tenho suas são turvas, tal como a imagem que eu conseguia fazer de você. Havia sempre algo impedindo o entendimento, a compreensão de quem você era e o que queria. Como eu tentei... E você deve saber que tentei... Alinhar-me a você, para ter um momento de encaixe, algo que seria natural. Nunca foi natural. Após cada fato vivido, era como acordar de um desmaio - não sei como cheguei ali, nem o que aconteceria depois.
É bom saber que você nunca lerá isso.
Preciso me libertar. Preciso por um fim ao império que se estabeleceu dentro de mim. Não existe espaço para um império neste coração. É apenas humano e precisa dedicar espaço para ele mesmo. Precisa amar-se e venerar-se. Um império é grande demais para mim; é forte demais e complexto demais. Quero simplicidade. Quero compreender até onde for possível e, quando chegar no meu limite, conseguir conviver com isso. Mas você sempre foi o meu limite, desde o início.
O que possuo agora são as marcas da passagem da sua cavalaria. Marcas que eu não consigo liberar. Chego a gostar delas, apesar de me lembrarem de você. Me causam verdadeiro aperto, um congelamento no corpo, esqueço de soltar o ar que inspirei. E tenho que inspirar bem fundo para conviver com essas marcas. São coisas lindas que você me mostrou, tão dignas de um imperador. Mas, quem diria, nem mesmo você foi capaz de aguentar tanta força. Chegou, apossou e... fugiu. Me responde agora: como fica tudo aquilo que um dia você chamou - ou quis chamar - de seu? Ficaram para trás, fitando a trilha empoeirada que deixou quando partiu. Empoeirada mesmo, aliás, pois nunca se sabia se estava voltando ou se tinha ido para sempre. Abandonados.
Você me mostrou uma das mais belas composições que conheço. Algo simples, real e verdadeiro. E aí então disse que essa deveria ser a sua canção. Galanteador? Eu não achei. Preferi acreditar que estava me dizendo a verdade e que, aquele que tantas vezes fugiria, era capaz de sentir profundamente e identificar-se com aquela beleza, aquela realidade. Às vezes, escuto essa canção e não me diz nada. Noutras, é capaz de parar o mundo, limpar minha cabeça de todos os pensamentos e me remeter somente a você.
Preciso me libertar.
Já passo tempo demais pensando em você. Quero passar um dia - são somente 24 horas! - sem lembrar seu nome. É tão difícil. É muito difícil esquecer o nome do imperador, aquele que possui o todo, que manda, que decide. Você decidiu demais já. Governou como mandavam as suas regras e esqueceu de pensar em quem estava mandando. Não sinta pena. Ha! Que ridículo. Como se você sentisse pena de alguma coisa. Alguém tão cheio de si, um fugitivo, não seria capaz de lembrar que existe alguém além da próprio fronteira corporal.
De você não quero nada. Mas, já que passou por essa terra e dominou-a, apossou-se dela, tenha a decência de tratá-la ou libertá-la. Preciso de uma carta de alforria. Preciso de um ponto final. Por mais que isso seja difícil de entender, um fugitivo não termina uma história. Ele a deixa inacabada, parada, sem rumo. Os personagens dessa história têm suas vidas e próprias vontades, mas alguns se recusam a pensar que a interação cessa de maneira tão brusca e sem motivos.
Você tem seus motivos, claro. Sempre os teve. E nunca os compartilhou. Eu posso apenas adivinhar o que se passava na sua mente para que tomasse cada decisão. Mas nunca terei certeza. Não me diz respeito, na verdade.
Não quero ser uma fugitiva também. Não quero correr até sair dessa história. Essa história é um pedaço da minha vida agora e, como disse a música, mexeu demais. Talvez não tenha sido sua intenção. Nesse caso, estou sozinha para me virar com tudo que aconteceu. Você não me deve nada e eu quis te dar demais. Será que você fugiu para não aceitar mais? Achou que ficaria na dívida?
Por isso escrevo hoje. Para pedir que pague o que deve, liberte o que prendeu e aceite o que é. Eu tenho que continuar buscando uma maneira de deixar bem de lado as lembranças que tenho. Por que insistem em reiluminar-se? São amargas, inquietas, tortas. E, provavelmente, não te tormentam tanto quanto a mim. Pois bem, tome aqui um punhado de lembranças. Guarde com você, porque o meu espaço acabou.
Quero entrar em outra história.
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