Dez anos após o auge da minha fase teen, percebo que ainda é possível viver momentos legitimamente adolescentes e, o que é pior, com o peso da experiência gritando e enfatizando o absurdo daquilo tudo.
O cenário
Uma aula
Os fatos
Fim de ano, grande comoção para o evento de encerramento das atividades da escola. Com os prazos de ensaio apertados, a turma adulta e juvenil estão mescladas durante uma aula, afim de aproveitar todo o tempo possível para aperfeiçoar a apresentação.
A história
Logo na chegada, percebi que havia mais gente do que o habitual. Como não reconheci ninguém, não dei muita bola e segui para o espaço da aula. Poucos minutos depois, aparecem dois rostos conhecidos e... vários desconhecidos. Como a junção das turmas não foi anunciada previamente, deduzi que as alunas estariam ali para repor alguma aula ou coisa do gênero. A chegada do professor se deu com mais alguns minutos decorridos e, com sua instrução, começamos o aquecimento, comandado por uma das alunas da turma adulta.
As alunas da turma juvenil se mantinham em pequenos grupos, olhando por baixo de suas madeixas brilhantes, com olhares um pouco tímidos, mas confiantes, de certa forma, dado que aquele espaço era delas também, em algum momento da semana. Estudavam as pessoas, faziam comentários e encontravam posições que lhes parecesse natural para ocupar a aula que, ao menos hoje, não era completamente delas. Pareciam estar dispostas a se fazer presentes, mas não esqueciam da "hierarquia", imposta pela diferença de idade.
O aquecimento se deu em sala pequena para a quantidade de braços e pernas que eram alongados e esticados, forçados até o limite. Durantes aqueles 60 minutos, pensei por que me sentia julgada? Estaríamos competindo pelo maior alongamento? Isso me pareceu uma bobagem e, tendo vivido essa competição irreal durante a própria adolescência, abandonei a idéia. Estaríamos então comparando, dentro de nossas próprias cabeças, quem estava mais em forma? Quem tinha o cabelo mais bonito e brilhante? Cabelos sempre foram um dos meus pontos fracos. Explicações do porquê seriam monótonas, mas basta dizer que, enquanto as jovens deixavam suas madeixas voarem livremente, emoldurando os rostinhos não tão inocentes, eu optei por duas maria-chiquinhas e faixa de cabeça, que seguravam o cabelo (já curto) longe do rosto e do suor.
Enquanto alongávamos, nossa líder introduzia piadas que quebrariam o clima de tensão, presente devido à co-existência das duas tribos em território, a princípio, neutro. Por um lado, éramos todas iguais – praticávamos a mesma atividade, com o mesmo professor, no mesmo local. Porém, existia uma barreira invisível e indecifrável entre as duas turmas. Em vez de trocarmos experiências e realmente mesclarmos, formamos pequenos grupos de proteção, como se falássemos línguas diferentes e compartilhássemos assuntos diferentes. Poucas vezes durante a aula vi um elemento de um grupo interagir com outro. Em dado momento, uma das jovens pediu para utilizar o aparelho que havia sido designado para um grupo adulto, pois estávamos descansando. "Sem problemas." Com este movimento ousado, me senti na liberdade de fazer o mesmo com o aparelho delas. “Sem problemas.” Nesses momentos de interação, me passa pela cabeça se não existe um medo transformado em cordialidade, de maneira a prevenir atritos desnecessários?
Com o passar da aula, os grupos foram relaxando e, dado que havia espaço para todos, ninguém foi forçado a interagir com quem não desejava. Da mesma forma, ninguém foi privado de praticar a atividade. Porém, não conseguia tirar da cabeça os olhares ameaçadores e, ao mesmo tempo, medrosos e tímidos do início da aula. Seria realmente necessário aquele estranhamento entre membros da mesma espécie? Quem teria decretado a competição e por que havia sido acatada por nós?
Em um momento particular e independente da presença da turma juvenil, me senti realmente adolescente e, tal como quando o era, completamente insegura e desvalorizada (por mim mesma, percebo agora). Em uma turma onde 90% são mulheres, aparece com certa frequência um rapaz. Durante as aulas em que o vi presente, me pareceu que a interação com o resto da turma era realmente de puro coleguismo. Nesta aula em particular, o rapaz chegou atrasado, não participou do alongamento/sessão de críticas silenciosas em sala apertada e não foi designado a nenhum dos grupos de treinamento (aparentemente, separados por idade e/ou habilidade). Poucos minutos depois da sua chegada, chega também outra aluna da turma adulta, que o comprimenta com o diálogo:
"Ah, oi!" *beijinho, beijinho* "Nos conhecemos fora de contexto."
"Pois é." *beijnho, beijinho* "Tudo bem?"
"Estou exausta..."
"Imagino!" *risos*
Na mesma hora, passou pela minha cabeça (além de estranhar o gesto, dado que ninguém ali se cumprimentava com beijinho, beijinho) a imagem de uma festa bombante sexta à noite, onde ele se aproximava dela, de maneira charmosa e cheia de simpatia, e, após alguns minutos de conversa, descobriam que eram colegas de turma e que a impressão de se conhecerem de algum lugar não era afinal somente impressão. Quando um pensamento como esses me ocorre, o que importa para mim é a conclusão que segue: o que tenho a ver com essas pessoas afinal? Compartilhamos o gosto por uma atividade física e estamos na mesma aula, mas tantos compartilham gostos que os fazem se esbarrar pela cidade, com milhões de habitantes. Onde estão as pessoas com as quais eu estaria esbarrando? Seriam meus gostos tão diversos assim? Ou apenas sem rumo nem foco?
Não sei se foi impressão minha, mas este rapaz, com o qual eu acreditava estar desenvolvendo o coleguismo, não pareceu muito disposto a interagir na aula em questão. Sendo assim, após presenciar o diálogo acima e revirar os pensamentos descritos, me afastei física e emocionalmente da situação, pensando que existe sempre uma próxima aula para ser colega, ou mesmo que ele pode nem ter me reconhecido (!!!).
Tendo em vista a pressão do ensaio (do qual eu não participo), o fato da aula terminar tarde (pois começou atrasada) e o meu estado de total descontrole emocional, preferi me retirar antes do “sino tocar”. Agarrei a mochila, me calcei e saí sem olhar pra trás, como um bicho que foge naqueles últimos instantes antes de ser devorado ou ter um colapso que comprometerá eternamente sua interação social.
Respirei aliviada quando já estava longe do espaço da aula, no meio de estranhos em um ponto de ônibus. Segue indigesto, porém, a insegurança que me causaram meia dúzia de adolescentes das quais eu nem fiquei sabendo o nome.
30.11.08
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