15.11.08

A primogênita

Eu fui a primeira de um total de 10 primos - 3 por parte de pai e 7 por parte de mãe. Deve ter sido um frisson. Mas, bem diferente da emoção de estrear a próxima geração de uma família, é a percepção do impacto de ser o primeiro, o desbravador de fronteiras.

Aos 25, alguns primos poderiam ser meus irmãos e outros poderiam ser meus filhos, o que me leva a concluir que, desde que eu mesma era um bebê, eu convivo com bebês. Não só isso, como também acompanhei alguns momentos de suas mães - alegrias, dificuldades, rotinas. Enquanto criança, tudo era brincadeira. Depois que tomei consciência da diferença de idades, comecei a sentir um pouco de responsabilidade por eles. Infelizmente, não convivo com todos de maneira tão próxima, mas, sempre que possível, tento ser amiga. Um primo é um amigo de graça. Não precisamos fazer muita força, porque ele já é família, então é só questão de adaptação das personalidades.

De qualquer maneira, não foi aos 25 que comecei a achar que algumas coisas poderiam ter sido diferentes caso houvesse familiares na mesma geração que eu, mas mais velhos. Que eu saiba, eu realmente fui a primeira a conquistar alguns marcos da vida – formatura no colégio, faculdade, formatura na faculdade, emprego, namorado. Mas, ainda que estivesse passando por esses momentos, havia sempre algum contemporâneo que me alertava do fato de que eu estava aprendendo tudo ali, na hora, e ele já havia aprendido antes, com alguém, algum primo talvez.

O que isso tudo quer dizer? Sinceramente, não sei. Por outro lado, do topo dos meus 25, eu ainda vejo os meus primos, o que poderiam ser meus irmãos, como crianças sem experiência, como jovens ingênuos. Algo me diz também que estou redondamente enganada! A verdade é que, olhando para trás, eu me vejo como jovem ingênua na idade deles. De certa maneira, ingênua até hoje.

Uma teoria que tenho é a do fator “presença infantil”. Quando existe um bebê ou uma criança no ambiente, todos estão muito conscientes disso e o comportamento é, de certa forma, regulado. À medida que o número de crianças vai aumentando, e que as crianças de ontem viram jovens, a fronteira entre o comportamento adulto e o infantil fica nebulosa. Os adultos passam a conversar entre si, pois as crianças estão entre si também, mas sempre escapa um pedaço de conversa, de lá pra cá e vice-versa, e nisso, lá se vai um pouco de ingenuidade.

Durante uma conversa sobre qual seria a comemoração escolhida para o aniversário de 19 anos de uma prima, a mãe sugeriu uma festa. Ela descordou, dizendo que já havia feito duas festas e que achava que, esse ano, preferiria juntar poucos amigos e... sair para beber. Depois de engolir em seco e respirar torto, eu comecei a pensar nessa menina, que carreguei no colo quando nem eu mesma tinha tamanho para carregar alguém no colo, sentada em uma mesa de botequim, bebendo e rindo.

E aí lembrei de mim aos 19 anos. Segundo ano de faculdade, nenhuma chopada no currículo, primeiro namoro recém começado. Eu não tinha coragem de pedir um drink só para mim, quem dirá bebê-lo! Era vergonha da inexperiência. Não me permitia errar, nem mesmo quando eu sabia que era a primeira vez.

Poucas horas depois dessa conversa dos 19 anos, estávamos almoçando e ela identificou um licor (por nome!) apenas cheirando-o. Na minha casa, bebida nunca foi escondida. Eu sempre provei o que estava ao meu alcance e com consentimento paterno. Mas nunca cheguei ao ponto de identificar uma bebida com tanta precisão!

Um papo que sempre me deixa inquieta sobre minha experiência de vida é a quantidade de relacionamentos até a presente data. Como comentado anteriormente, meu primeiro começou no segundo ano de faculdade. Um pouco tarde, se comparado à média dos jovens. Primeiros beijos, primeiros amassos, primeiros riscos... De alguma maneira, eu consegui empurrar isso tudo para mais tarde do que a média. Será que os adultos me deixaram ser criança por muito tempo? Será que em algum momento da minha infância eu pulei um passo e passei a ter uma cabeça “adulta” em um corpo jovem?

Perguntas que não serão respondidas e fatos que não podem ser mudados.

(Este texto termina aqui, por falta de uma conclusão melhor. Não estou satisfeita, mas vou me permitir essa falha.)

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