31.10.08

The line walks

É sempre bom conversar com amigos para organizar os pensamentos e ouvir exatamente aquilo que já sabemos, mas não temos coragem de dizer para nós mesmos.

? Se fue.

29.10.08

Meus pêsames

Eu raramente vou a cemitérios. Não por medo, mas - e por isso, sim, tenho que dar graças - por falta de necessidade. Até agora, a família se mantém mais ou menos igual ao que era quando eu nasci, ou seja, vi poucas pessoas próximas a mim morrerem. Talvez, por isso, a notícia de uma morte (que não seja família, claro) e conseqüente enterro seja recebida como apenas mais uma notícia. Talvez seja a realidade urbana que nos apedreja o coração diariamente e transforma uma morte em uma simples perda. Esquecemos que é a perda de uma vida.

Hoje eu fui a um enterro. Não era membro da minha família, não era sequer conhecido meu. Era família de uma amiga. Fomos eu e outra amiga para dar suporte, seguindo a teoria de mostrar para quem perdeu que, apesar de uma pessoa ter ido, existem tantas outras que a estimam.

Recebi a notícia de manhã cedo, quando já estava na rua e começando a rotina. Mas morte é uma dessas coisas que não podem ser pensadas mais de uma vez - pára-se e tudo reorganiza-se o dia em torno daquele evento. A minha tarefa seria ir para o trabalho e lá ficar até o momento em que tivesse que sair, dando ou não satisfação, convencendo ou não de que era verdade. Por "sorte", a tarefa foi cumprida com sucesso.

Na ida para o cemitério, fui colocando o papo em dia com minha amiga, que estava dirigindo. Comentamos sobre o estado de saúde da senhora que havia morrido, como estava a família, como estava nossa amiga e amenidades de nossas vidas. Chegando ao cemitério, estacionamos e fomos em busca de conhecidos. Acredito que desse ponto em diante, tive uma sucessão de momentos de insight, possibilitados, provavelmente, pela razoável ausência de emoção em mim.

Momento: Nas capelas de velório
Dentre os rituais inventados pelo homem, o velório me parece um dos que mais precisa de revisão. Entendo que seja importante despedir-se, sofrer um pouco a perda, permitir que outros também o façam... mas que seja pouco. Apenas o suficiente para reunir as pessoas, desenvolver o sentimento de apoio mútuo e partir para os finalmentes.

Quando perdi meu avô, minha avó queria passar a noite velando o corpo. Aos 80+ anos, esta senhora queria virar a noite acordada, para depois encontrar e cumprimentar dezenas de familiares que estariam vindo para o enterro. Deu pra pescar a seriedade da coisa? De minha parte, entendo que seja um ritual de despedida da pessoa que passou boa parte desses 80+ ao lado dela, mas, dadas as condições (emocionais, de saúde, etc) esse não é o melhor momento para forçar o corpo ao extremo de suas energias. Não sei qual seria outra forma de fazê-lo, mas merece ser revisto.

Voltando ao momento de hoje então... Entramos no prédio que abriga diversas capelas, para velórios simultâneos. (Como bem comentaram, enterro é um verdadeiro negócio, um business. Mórbido, mas é.) Como não vimos ninguém conhecido, fomos subindo a escada - uma sensação de peso já começando a me invadir - e passando pelas pessoas, pelas portinhas que distingüem as capelas. Eram diversos olhares perdidos que nos acompanhavam, talvez por não termos sido reconhecidos por ninguém, talvez por estarem todos em um momento de perda mesmo, perda material e de sentido. Logo percebi a trivialidade irreal com a qual havia recebido a notícia no início da manhã.

Uma vez que conseguimos contactar um conhecido, descobrimos que o velório não havia acontecido ali e que devíamos ir direto para a entrada do cemitério. Seguimos o caminho da saída, portanto, deixando para trás olhares e lágrimas com os quais não nos identificávamos.

Momento: Na entrada do cemitério
Após breve "passeio" pelos túmulos até o portão principal, encontramos um cantinho para esperar a chegada da nossa amiga e sua família. Percebi que aquele passeio foi até bom. Estar no meio de pessoas em sofrimento é extremamente contagioso e pesado, mas estar entre túmulos de pessoas que já se foram e agora "descansam" é pacificador. Em nenhum momento comecei a pensar que estava gostando da idéia de estar em um cemitério, mas o nó que havia começado a se formar no meu estômago estava consideravelmente mais solto.

A família estava atrasada, pois o velório havia sido em casa e, com o congestionamento, não conseguiram chegar no horário marcado. Fiquei imaginando essa situação - pessoas angustiadas para ver o fim daquilo tudo, tendo que esperar no trânsito caótico de uma cidade mal administrada. Além disso, observava quem passava... Jovens, idosos, pessoas que haviam saído do trabalho, da escola, pessoas sérias, outras até felizes de terem reencontrado alguém que não viam há muito tempo. No enterro do meu avô mencionaram: "Para juntar a família e os amigos todos assim, só casamento ou enterro." Eu hoje acho que só enterro mesmo.

No meio daquilo tudo, me chamou a atenção o nível dos óculos escuros. Sem dúvida, era um enterro de classe alta. Num lugar onde todos têm a chance de serem iguais, ou seja, retornarem à terra, as diferenças insistiam em existir. O morto que era ali enterrado poderia ter o diferencial de estar em um túmulo, gaveta ou mausoléu, mas poderia ainda ter um cortejo da mais alta estirpe! Não pude fazer anotações para um estudo futuro, mas, pelo que vi rapidamente durante aquela hora que estivemos ali, meu chute seria que o nível do grupo é diretamente proporcional à quantidade de óculos escuros portados.

Eu estava sem óculos escuros.

PS: Será que certas pessoas não se permitem sofrer? Seriam os óculos escuros uma venda para terceiros, de maneira que continuem achando que tudo está bem? Que o dinheiro permanece?? Não estou nem perto do fim dos meus questionamentos, disparados pelos óculos escuros.

Momento: Durante o enterro (literalmente)
Eu tenho dificuldade pra chorar em enterros, pelo menos os que vi até hoje. Nem mesmo no do meu avô consegui chorar. Dois possíveis motivos: não morávamos na mesma cidade e não o via há um tempo; ele estava muito doente há mais de ano e sofrendo, então aquele enterro era não só uma questão de tempo, como também tranqüilizante (para todos).

Bom, estavam todos agrupados quando ouvimos uma voz pedindo licença. Era outro cortejo que estava passando, um pouco menor que o grupo que abria a passagem e, se não me engano, não havia nenhum portador de óculos escuros. Mas estavam todos ali, em procissão, expressões sérias e introspectivas. E nisso os dois grupos eram iguais.

O puxador do cortejo é uma figura à parte. Faz aquilo tantas vezes ao dia que aplica todas as regras de como atuar no trabalho para aquela função. O que mais me chama a atenção é a velocidade com que puxa o grupo para frente. No enterro no meu avô, fui designada para carregar uma coroa de flores. Talvez para amenizar a tensão, comecei a conversar com o puxador do cortejo. Nem me lembro mais do que falávamos, mas, relembrando, deve ter sido uma das conversas mais esquizofrênicas que já tive - eu, a neta que não chora da cidade grande, e o coveiro, que faz aquilo todo dia em uma cidade de menos de 100.000 pessoas. De qualquer maneira, estávamos no meio do caminho quando olhei pra trás e percebi como estávamos andando rápido. O eficiente coveiro havia apertado o passo e eu o acompanhava, distraída pela conversa. O resto das pessoas, porém, formavam uma nuvem carregada de formalidades, comom bem manda o ritual. Seguiam em passo lento, sofrido e arrastado, trazendo o caixão.

Talvez o coveiro não goste muito daquilo e queria ver tudo terminado também... Uhm...

Momento: Despedidas
Terminado o enterro, aguardamos alguns minutos para falar com outra conhecida da família e, finalmente, irmos embora. Se chorar foi difícil, saber o que dizer foi ainda mais. "Meus pêsames" sempre me parece batido e sem conteúdo. A verdade é que ninguém devia estar exigindo criatividade numa hora daquelas, mas eu queria falar algo que fosse marcar a presença, mostrar sentimento (como se a mera presença ali não fosse suficiente). Mas, como eu disse antes, morte é uma coisa que não dá pra pensar duas vezes, então me despedi com um sincero "me avise se precisar de alguma coisa".

Em um grupo de cinco, todos amigos ou parentes mais distantes da família da falecida, encontramos um caminho de saída, mais uma vez por entre os túmulos, e por ali fomos, mais uma vez trocando amenidades. Espero que essa capacidade de "quicar", ou seja, passarmos de um momento extremamente sóbrio para uma conversa sobre festas, seja um sinal positivo da força interior de cada um ali. Se não, pode ser também um escudo, uma segurança para não ser consumido pelo ar de sofrimento e perda.

Para fechar...

Ao chegar em casa, liguei o computador, pois havia dito que trabalharia um pouco mais para compensar a saída antes da hora. Porém, olhando para a tela, comecei a sentir um cansaço que me impedia de chegar ao final das frases que lia. Este cansaço logo se transformou em sono profundo e cheguei relaxar a cabeça com o olho fechado, por milésimos de segundo até que o tranco no meu pescoço me trouxe de volta à realidade. Realidade esta que preferi não desafiar - fechei tudo e me deitei para um cochilo de 15 minutos que se extendeu por duas horas.

Repassando o dia mentalmente, não lembro de ter me sentido tão cansada em nenhum momento, razão pela qual acredito que, ainda que inconscientemente, fui tomada pelo clima pesado dos eventos da tarde. E isso, por sua vez, me faz pensar que, ainda que o cotidiano urbano esteja endurecendo meu coração, a vida é mais forte que qualquer armadura, e capaz de tocar profundamente, independente da experiência adquirida.

25.10.08

Nem aqui, nem acolá

Sequencial ao post de dois dias atrás (Companhia) e, graças à clareza mental e alta capacidade expressiva de minha "team member" neste blog, está explicada a ansiedade gerada por programas de comunicação virtual. O problema não é não encontrar amigos online, mas sim vê-los online sem qualquer manifestação para falar contigo.

Claro que existe aquele punhado de contatos com os quais não é exatamente divertido trocar idéias TODO santo dia, mas tem sempre um - pelo menos um - que estará ali "verdinho", como costumo dizer, praticamente sempre conectado à rede, mas nunca do outro lado do computador. Essas pessoas, muito chiques e solicitadas, estão sempre em "away" ou "DND", também conhecido como "do not disturb" ou, traduzindo, indisponível. Sempre, presentes, nunca alcançáveis. Confuso, talvez, mas extremamente cool.

Como reconhecê-los? Simples. Procure os seguintes símbolos: ou .

No primeiro, vê-se um relógio, encobrindo o "verdinho", ou seja, a pessoa deve ter saído por alguns minutos, mas já volta. No segundo, nota-se uma pequena lua amarela, em fundo escuro, ou seja, a pessoa deve estar longe do computador, quem sabe nem dormiu perto dele aquela noite (ou dia, quem sabe).

Existe uma rotina doentia e muito contagiosa: ligar o computador, esperar até que todos os programas de chat estejam carregados e operando, abrir cada uma das listas de contatos, percorrer cada lista procurando alguém pra papear (sabendo que, quase com certeza, essa uma pessoa será encontrada), encontrar uma pessoa com quem se deseja papear e... constatar que está "indisponível". No próximo dia, repete-se tudo e, mais uma vez, "indisponível". No início, dá pra acreditar; após alguns dias, começa a ficar chato; após algumas semanas, vira paranóia e as fantasias mais esdrúxulas começam a despontar. Exemplos:

-- Na verdade, não está indisponível, mas quer parecer que está, pra ficar mais bacana;
-- No fundo, não quer mesmo falar com ninguém;
-- Ou ainda, só quer falar com outra uma pessoa, então faz o mundo acreditar que está indisponível.

Todas as opções são perfeitamente possíveis e, inclusive, reais, dado que já foram praticadas por esta que lhes escreve. Porém, isso tudo virou passado eu resolvi assumir meu "status" online: "disponível".

De qualquer forma, os programas de chat em si não contribuem para a quebra dessa rotina. O último recurso espertinho que foi disponibilizado compreende a possibilidade de enviar mensagens para um contato mesmo que este esteja offline. Incrível, não? É quase uma secretária eletrônica do chat. O problema surge quando essas mensagens não são retornadas, pelo menos para uma neurótica em busca da salvação.

Trilha sonora

Hoje foi um daqueles dias para o qual a noite não chegou nem aos pés... Quando todos parecem inalcançáveis e mesmo os amigos, aqueles que "sempre estarão lá para você", não estão disponíveis. E aí eu canto...

Não me deixe
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz...
Não me deixe só
Tenho desejos maiores
Eu quero beijos intermináveis
Até que os olhos mudem de cor...
Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz...
Não me deixe só
Que o meu destino é raro
Eu não preciso que seja caro
Quero gosto sincero de amor...
Fique mais
Que eu gostei de ter você
Não vou mais querer ninguém
Agora que sei quem me faz bem...
Não me deixe só
Que eu saio na capoeira
Sou perigosa
Sou macumbeira
Eu sou de paz
Eu sou do bem, mas...
Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz...

22.10.08

Companhia

Não é de agora que tenho sentido um vazio imenso nas últimas horas do dia. Quando todos os compromissos foram cumpridos, as refeições feitas e as notícias dadas, sinto-me perdida. Me vem uma inquietude que me leva a andar pela casa, procurando uma "a fazer", ou mesmo uma companhia. A conclusão mais imeadiata e clara é que eu não me basto; não consigo ficar sozinha comigo mesma. Talvez eu esteja entediada de mim mesma, talvez não tenha nada a ser dito entre "nós". Mas por que é tão difícil apenas estar em algum lugar, apenas ser?

Há vários meses a rotina noturna é chegar do trabalho, abrir o computador (que não foi desligado, apenas hibernou), passar rapidamente no banheiro para lavar o rosto e voltar ao computador, ferramenta que me acompanhou durante 8 horas de trabalho nesse mesmo dia. Neste computador estão "ligados" pelo menos três programas que me conectam com o mundo - interfaces de bate-papo onde há uma lista de "amigos". É esse o mundo? São estas as companhias que busco no fim do dia?

É aqui que encontrarei meus amigos??

Percorro as listinhas de contatos, uma por uma, em busca de quem está online. Por mais nomes que veja, poucos despertam verdadeira vontade de puxar assunto, ou seja, poucas companhias realmente me comovem nesse momento. Alguns são contatos delicados: tenho muita vontade de puxar qualquer tipo de assunto, mas isso não deve ser feito sem muita análise prévia do que será dito e de quando foi a última vez que falamos. Complicado, né? Regras deste "mundo"... Ou talvez regras da minha própria cabeça. Falta de espontaneidade, no fim das contas, mas quem até hoje se deu bem sendo 100% espontâneo?

A vontade de conversar com alguém permanece, cresce dentro de mim. Quem será essa pessoa? O que devo fazer para identificá-la? Tento amenizar o sentimento com algum tipo de entretenimento. Já percebi que apenas aquele que não requer esforço mental tem algum efeito - televisão. Raramente acrescenta alguma coisa, mas freqüentemente distrai. Distrai! Desligue a televisão e lá está o vazio novamente. Ler não adianta; escrever, apenas às vezes; tocar... não só requer esforço físico e mental, como traz ainda mais lembranças. De todas as tentativas frustradas, resolvi fazer a leitura funcionar. Estou me empenhando, conquistando página por página, em qualquer hora vaga que tenha.

Mas, mesmo assim, chega uma hora que os olhos cansam, ardem, e a leitura não acompanha mais, apenas irrita. Nesse momento me dou conta que não quero ver o amanhã chegar. Não quero encarar outro dia, suas rotinas, surpresas, desafios. Segunda conclusão clara e cristalina: preciso alterar minha rotina. Mais que nada, as metas profissionais devem ser uma motivação para começarmos cada dia. Passamos mais tempo no ambiente de trabalho do que na companhia de qualquer outra pessoa em nossa vida.

Comprovando:
8 horas de sono [quem dera!] - a sós
9 horas no trabalho - com colegas
7 horas divididas entre família, extra-curriculares, trânsito, a fazeres, tempo livre para mim mesma - todas as outras pessoas na vida

C.Q.D.!

Ou seja, muito me preocupa perceber que estou tentando prolongar uma noite na qual me sinto vazia, ou mesmo persistir na busca por uma companhia, simplesmente para não encontrar o resto do mundo no dia seguinte. E, como já é costumeiro, quanto mais se busca e se espera, menos se encontra...

M@ldita expectativa.

21.10.08

Friend or foe?

It is a sad moment that in which we realise all efforts have been made in vain. That maybe it would have been simpler and less stressful to have given up on the battle, rather than struggle to the end of one's energy. Some battles are fought to be lost. Other battles will have no winners. My view is that relationships should not resemble battles.

In the neverending process of understanding and knowing someone else, having to bring out the troops is a dead-on signal that something is missing, or going the wrong way. I like to understand people, I like to know why they react in the way they do, what's going through their minds, why they say what they do and when they do it. An herculean task, no doubt, but it's just part of the way I chose to put the puzzle of the world together.

Some people, however, are bound never to be understood. And they don't really care. Maybe it's charm, but maybe it's just confusion. It starts to bother me though when this lack of care touches on indifference. Ironical to think that all these posts have a goal of looking at something other than ourselves and here it is, a post that states so clearly how hard it is to actually recognise the many people beside us, and thing about how they feel.

Before it gets too melodramatic or starts to sound like a plot for teen cable-TV, I'm making it practical.

Things that should be abolished, if possible, from relationships:
- Games
- Promises
- Expectations

Funny enough, games can lead to promises that generate expectations. So it would be incredibly easy to just stop playing games. Live it like it is - say what you mean, do what you're capable of and no more, no less.

But I guess it's too much to ask from those "charmers" who don't really care, who are way too busy plotting the next smart move to think about the consequences of the previous one. And then there's the people who think about others too much... and forget life only happens once.

Friendship is one type of relationship that should definitely be game-free. No doubt about it, true friendship is as scarce as a pink gummy bear; but just friendship - simple, fun, non-critical, with just the right amount of time spent together - seems to be getting more and more corrupted with the game virus.

I recently tried to be friends with someone. It looked like it shouldn't be hard. But then I guess miscommunication kicked in at some point and I missed (or misinterpreted) something. It was, and has been, a bitter sensation to feel the loss of something that maybe never existed (wow, yet another re-run feeling).

I do hope I'm wrong to think I'm not the friend he needs, or he's not the friend I want.

19.10.08

Devaneios 2

Em uma noite não menos nem mais desinteressante que a maioria das noites, elas se planejam a programação para mais tarde. Feita a proposta de conhecer um barzinho novo, a conversa flui para outros cantos e logo a programação é deixada para segundo plano. Difícil é ignorar o horóscopo do dia:
Sol e Lua transitam por casas naturalmente harmônicas
entre si entre os dias 18/10 e 20/10: o Sol na Casa 5, setor do prazer, e
a Lua na Casa 1, o setor da identidade, sendo este um momento especial para tudo
o que diz respeito ao lazer, às diversões, à satisfação da sua "criança
interior". Nesta fase, seu magnetismo sexual fica mais forte, você terá mais
presença, mais luz!
Que tal aproveitar pra dar aquele trato no visual, dar um
tempo pros pudores e se exibir um pouquinho? Todo mundo tem seu momento de
estrela! Esta é uma ótima fase para você se colocar, se expor. Você
provavelmente estará se apresentando de uma maneira agradável e envolvente, os
outros estarão sentindo empatia em relação a você
. Reflexão para o período: o
prazer faz parte da existência e eu mereço vivê-lo
!

Com uma previsão dessas, ainda que dúbia, como ficar parada em casa? Resgatam-se então os planos iniciais e começam os preparativos para o evento.

Chegando lá, oba, ainda dá pra pegar o desconto pela hora de entrada. Mas, uma vez dentro do estabelecimento, cadê todo mundo?? Alguns poucos gatos pingados se dividem entre os vários ambientes com mesas, sofás e cadeiras, tudo mal iluminado e decorado à la pub-brasileiro da nova geração. Breve momento filosófico acerca do porquê de estar tão vazio - seria a chuva?, seria uma moda que passou?, seria a baixa estação?, seria azar? Conclusão: não vale a pena filosofar; melhor é aproveitar o que há para ser aproveitado e estabelecer um prazo para ir embora, caso não "melhore".

Em uma jogada estratégica, mudam de lugar no bar, aproximando-se da pista de dança, afim de conferir a movimentação (e quem sabe até dançar). Por ali ficam por mais uns minutos até que algo chama a atenção. Um olhar direto e sem vergonha alguma é lançado para ele, que passa por elas. Conta-se 3, 2, 1... "Oi..." Ou talvez nem seja um oi, mas sim alguma frase desconexa, em três línguas diferentes (uma delas haveria de ser a certa).

Contato estabelecido! A sequência dos fatos não é muito diferente da grande maioria das histórias que começam (e, geralmente, terminam) em uma boite.

Pulando para o fim da noite (já ouviam-se alguns passarinhos...), fica a sugestão de se encontrarem novamente no dia seguinte, talvez para um passeio cultural. A previsão de chuva o dia inteiro não é animadora, mas onde há esperança... E não parece um planejamento tão impossível ou pouco razoável de ser executado - entre 13h e 14h, ela passaria onde ele se hospedava, o chamaria e sairiam para passear. Simples assim.

Alguma... Aliás, bastante insegurança no dia seguinte. Estaria ele lá? Lembraria do combinado? Seria tudo uma furada? A fim de eliminar a maior parte possível de riscos, ela tenta entrar em contato por telefone. Sem sucesso, deixa um recado.

Outra chamada, sem sucesso novamente.

Dane-se tudo! Que seja efetuado o combinado, nem que seja para saber o que acontecerá. E com o foco determinado, ela sai de casa, na chuva que agora engrossou, em busca o local visitado na noite anterior. Adentra a recepção, chama-o pelo nome e... Nenhum sucesso. Ninguém o viu, ninguém conseguiu entregar o recado deixado meia hora antes.

Ela agradece e vai embora.

14.10.08

Re-run?

Amidst the average, day-to-day turmoils experienced in life, there is one big thing bothering at the moment: "Status: single".

Don't get me wrong, it's not a problem, per se, it's just a... burden. Like a pebble in the shoe, or maybe a skirt that's a tad too short, or even that popcorn thingy that gets stuck in the teeth. No world will end, no life will stop because of these issues - but they are issues! One cannot go on for too long without feeling uncomfortable or unfitting while aware of these minor details, but clueless (or helpless) as to what can be done.

Recently - and here's a thought: how recent IS "recent"? - anyway, for time enough to make it become a post, "status: single" has been making itself noticed and me, uneasy. Partying like mad in carefree singledom is nice - it can be fun, it brings friends together (some even get lucky with the togetherness!), it motivates you into knowing new things, new places, trying new food, new clothes, a whole NEW experience. But, fun and play aside - and I won't even bring financial matters to the table - it's tiresome. And when this fatigue kicks in, it's time for "status: needy".

I've been through needy moments. Like drunkness, one is only able to recognise a moment of need when living it. (Oh, wow, just like so many other things...) Because, like the drunk, the needy gets attention, gets noticed and... gets annoying. And it's perfectly fakeable, as well as cult, to shout out in a big party of people that you're going through a needy moment, that you're "depressed", oh-how-could-life-be-this-mean? and so on. Annoying.

But it actually HITS you, for real, it's not to be commented by everyone. It's only a few who can understand. Quick pouring-my-heart-out moment. (And this will be shared because I just thought it was too funny to be kept secret.)

One ordinary afternoon at work, while going over a spreadsheet, I questioned a number. Turned to my superior - that's what people do, at work, when in doubt - and questioned him, searching for reassuring words. He, in turn, says: "Well, that's what you told me." - Me: "But are you sure?" - Him: "I'm sure that's what you told me, darling."

Obs: For the native speakers, that dialogue took place in Portuguese and "darling" was actually "meu amor", which can be used in a variety of different situations, admiting an equal variety of meanings.

Well, darling was all I needed to make my day. Right then and there, I felt special and dear. Nope, no abusive or harrassive tone to it - just plain and simple tenderness was what I felt.

It reassured me, no doubt about it, but it also made me aware of my need for attention and care. Also, of how easy it can be to please someone, with a few words in the right place, at the right time. I'm sure he didn't think of any of this, which only makes it even more endearing - it just comes naturally to some people! ** air hearts **

Now this, especially the "air hearts" part, leads me to something else - has singleness become a beast that needs to be tamed? Do we fear it so much that we're making up tales that will forever keep us from being satisfied and contented with what is available? (Any resemblance to the Sex & the City format is not purely a coincidence.)

So that led to inner dialogue - am I making up tales? Is sparkles, fireworks, butterflies and fate all teen babble? (Are even teens believing that now??) I remember being a teen and looking up at pinned up posters at my wall - people I did not know personally and did not have a chance in hell of knowing before the next three or four reincarnations. So why did I look up to them? Why did they inspire and why did they make me feel I cared about something? (Well, maybe I didn't and only did that to look "normal"... Uhm, a whole new post.)

Fact is, when I was a teen, and knowing I would never meet those people, feelings faded maybe somewhere midway between myself and the wall that hung the poster. And that was that. As the pictures got old, new pictures replaced them. Today, there are no pictures - there are people. Reality check! Feelings do not fade midway between people.

So what I realise is that, maybe due to the tales I've been brewing in my head, I am trying to go back to Platonic loves, when it's ok and even expected to not come close... and it's not cutting it anymore.

12.10.08

Mãe sempre sabe

Deve existir algum Estatuto Internacional das Mães, que define que toda mãe sabe muito mais que seus filhos, independente da situação ou coordenadas no Espaço-Tempo. Seria talvez uma lei da Natureza, um dilema dos filhos, ou mesmo um enigma da esfinge? O fato é que a mãe é, quase sempre, a dona da verdade máxima, do veredito final, seja por experiência, autoridade ou sexto sentido.

É comovente e curioso o momento em que a mãe diz: "Não tem como isso não acontecer, é impossível que não aconteça! Vai acontecer, eu sei."

Digam-me: COMO???

Se nada na vida é com certeza, se o futuro é imprevisível, se tudo muda a cada segundo, se ninguém é constante, como será que alguém - maturidade e experiência de anos nas costas - ainda pode dizer que alguma coisa não é possível? Especialmente se essa alguma coisa involve uma outra pessoa.

Mãe é muito positiva e entusiasmada com as conquistas de filhos, em geral. Elas acreditam na capacidade dos filhos e, mesmo que essa capacidade não existe, costumam falar que vai dar certo, vão conseguir, etc, etc. Por outro lado, o filho, ainda que ciente de sua capacidade, não pode acreditar 100% em nada, pelos motivos supracitados - inconstância, imprevisibilidade, incerteza.

Ou seja, temos aqui um duelo de titãs: estar na pele da mãe, que tudo sabe, ou estar na pele do filho, que viveu a experiência. Enquanto a mãe acredita que o filho é capaz e põe fé naquilo que o filho faz, este mesmo filho:
- Não quer acreditar na sua capacidade, que é testada a cada minuto;
- Não quer acreditar na mãe, que é humana e não sabe de tudo;
- Não quer desapontar a mãe, uma vez que ela acreditou e existe uma possibilidade, por mair remota, que aquilo não aconteça como ela previu.
.
Torna-se bem difícil uma mãe entender as dificuldades e angústias de um filho à espera de um resultado, ou de uma avaliação. Sabemos que todas querem o bem, mas, às vezes, é melhor admitir que ninguém sabe mesmo o que vai acontecer.

6.10.08

Devaneios

Começa aqui a série "Lembranças que nunca aconteceram - Inícios, meios e fins de histórias que são frutos de uma mente criativa".

A série "Devaneios" lança um desafio, comum para todos os episódios - ao final de cada texto, pergunte-se: "Onde estará a fina linha que separa a realidade do devaneio?"

(Essa série pode também ser usada como contra-exemplo daquilo pregado em "The Secret".)


Um sarau. Duas engenheiras.

Em um apartamento de dois quartos que abriga mais instrumentos do que móveis, encontram-se quatro pianistas, três violonistas, um percussionista, duas ou três cantoras, um baterista, um sósia do Santana e respectiva senhora e duas marinheiras de primeira viagem, que nada tocam (pelo menos não naquele nível) e só cantam no chuveiro.

Após trocarem algumas palavras para quebrar o gelo, acontece um entrosamento superficial com qualquer um que se interesse por entrosar-se com estranhos, ainda mais que não é possível aprofundar muito o papo musical com estas duas engenheiras. São modestas - não falam nada além da verdade, e mesmo esta, com muita cautela. Tudo é friamente calculado e sujeito a análise prévia ou posterior.

A noite flui, alguma música é tocada, bebidas são consumidas, momentos são registrados em modernos aparelhos digitais, contatos são trocados. Resta a dúvida - para que?

24 horas depois - contato feito por rede social virtual.

72 horas depois - contato feito por chat.

Como todo bom chat entre estranhos, começa superficialmente, com perguntas default. Por sorte (ou quem sabe muita força de vontade), encontra-se um ponto de conversação que permite ir além dos monossílabos. Algumas idéias são trocadas, novos encontros são propostos.

1 semana depois - o que era para ser a materialização de um novo encontro não se realiza, devido a diversos fatores que não vêm ao caso.

1 semana e 24 horas depois - contato feito por rede social virtual, como tentativa de justificar o [não]ocorrido.

Sem reposta.

Parado o contador do tempo.

Executando tarefas e atividades diárias, surge a oportunidade de um novo contato. Por mensagem de texto, rápida, curta e impessoal, informa-se o paradeiro da protagonista, que sugere um reencontro nada virtual. Eis que esse movimento é bem recebido e a sugestão, seguida à risca. Em uma tarde de domingo, passeiam lado a lado pela orla tranquila de uma baía, sob as árvores e uma brisa marítima suave.

A conversa gira em torno de fatos corriqueiros - lugares, pessoas, comidas, familiares, trabalhos, viagens - que podem ser compartilhados sem muita profundidade, nem exigem demasiada reflexão. As idéias não são vazias, apenas não tornam aquela caminhada exaustiva. Pelo contrário, ajudam a esquecer a distância percorrida, de modo que a noite cai como véu e abraça o casal, perdido em dedos de prosa.

De repente, uma corrente de ar mais frio, dessas típicas da noite à beira-mar, interrompe o passeio, alertando da hora. As frases ficam pela metade quando se olham, juntos, nos olhos.

"Por que está me olhando assim?"
"Porque percebo que é tudo que quero."
"E o que você quer?"
"Essa tarde, essa sensação, com você, o agora."

Onde estará a linha...?



4.10.08

Passado que se fez presente

Duas coisas que, se perdidas, não podem ser recuperadas:
o tempo e a inocência.

Foi vasculhando por fotos antigas que me dei conta de quanto já aconteceu. Na verdade, a tarefa parecia simples: separar 25 fotos. Me vieram alguns momentos à cabeça, dos quais eu lembrava ter fotos e que me pareciam importantes para contar uma história. Porém, na imensa pilha de memórias, fatos, eventos, acasos e pessoas, encontrei muito mais que momentos importantes.

Encontrei pessoas que desapareceram. Se um dia elas fizeram laços de amizade, companheirismo ou qualquer tipo de afinidade comigo, este mesmo laço se desfez facilmente com os anos (ou quem sabe com poucos meses). Porém, naquele instante, o laço foi forte o suficiente para querer registrá-lo.

Encontrei também sentimentos que murcharam. Recordações de conquistas, novos conhecimentos, experiências, e - claro - mais pessoas, que despertaram emoções agora esquecidas, reprimidas ou superadas.

Encontrei lugares. Esses não requerem muita explicação, pois locais são sempre "cenas do crime". Para quem vivenciou o momento, a mera imagem de onde tudo aconteceu pode libertar lembranças que vinham sendo escondidas naquele cantinho obscuro da mente. E o melhor de tudo, um local faz isso tudo em silêncio, guardando para si as cenas ali protagonizadas.

Encontrei insegurança, muita insegurança. As fotos, sempre repletas de movimento, pessoas, cores, cheiros e sons, lembraram uma época em que não importava muito o que havia dentro, desde que fosse aprovado pelo que estava fora. Os outros, aqueles de quem sempre buscamos aprovação, estarão guardados para sempre, talvez para não esquecermos de que um dia fomos aquilo que eles quisessem que fôssemos.

Encontrei dúvidas, daquelas que se tem quando não se conhece bem o mundo, não se tem certeza do que está acontecendo nem de quem são as pessoas exatamente. Algumas foram respondidas com o tempo, outras se revelaram insignificantes e ainda outras permanecem vivas.

Talvez seja das dúvidas que se alimentava a inocência.

Talvez tenha sido a insegurança que me roubou algum tempo.

2.10.08

Que país é esse?

Existem sentimentos que são impossíveis de esconder. Por exemplo, decepção com o próprio país. Confiram duas ocorrências que ilustram os motivos desse sentimento.

Cenário 1: Linha 382 - CARIOCA - PIABAS
Respondendo ao sinal de um possível passageiro, o motorista pára ao longo da orla do Leblon.
Possível passageiro - Pára no MAM?
Motorista - Ahn...
Possível passageiro - Ali, na entrada da 1o de março.
Motorista - Não, passa ali na... (não deu pra ouvir)

O ônibus vai embora.
Cobradora - MAM? Que MAM?
Motorista - ...
Cobradora - Que tal MAM é esse? Oras...

Cenário: Calçada
Três jovens vêm caminhando, lado a lado, conversando. Dada a largura da calçada, o grupo ocupa exatamente a extensão da calçada, havendo apenas a largura do meio-fio livre para passagem.
Em sua direção, outra jovem vem caminhando. Ela analisa o espaço disponível para passagem, a velocidade do grupo, sua própria velocidade ao caminhar e as pessoas que estariam vindo atrás do grupo.
Ela vai caindo para a esquerda, em direção à rua, joga o ombro para frente levemente e, esquivando com o corpo, passa pelo grupo, utilizando a largura do meio-fio. Ah, claro, não sem se escorar levemente no asfalto com o pé esquerdo.

Caso ainda não esteja claro o propósito deste post, aqui vão palavras-chave:
- Ignorância
- Turismo
- Respeito
- Consideração

Citando alguns tantos torcedores, cantores e jovens...
Que país é esse?
É a po*ra do Brasil.