30.11.08

Nuvem Negra - Djavan

Não adianta me ver sorrir, espelho meu
Meu riso é seu
Eu estou ilhada
Hoje não ligo a TV nem mesmo pra ver o Jô
Não vou sair
Se ligarem não estou
À manhã que vem
Nem bom dia eu vou dar
Se chegar alguém
A me pedir um favor
Eu não sei

Tá difícil ser eu sem reclamar de tudo

Passa nuvem negra
Larga o dia
E vê se leva o mal que me arrasou
Pra que não faça sofrer mais ninguém

Esse amor que é raro
E é preciso pra nos levantar
Me derrubou
Nao sabe parar de crescer e doer

Pesadelo Teen

Dez anos após o auge da minha fase teen, percebo que ainda é possível viver momentos legitimamente adolescentes e, o que é pior, com o peso da experiência gritando e enfatizando o absurdo daquilo tudo.

O cenário
Uma aula

Os fatos
Fim de ano, grande comoção para o evento de encerramento das atividades da escola. Com os prazos de ensaio apertados, a turma adulta e juvenil estão mescladas durante uma aula, afim de aproveitar todo o tempo possível para aperfeiçoar a apresentação.

A história
Logo na chegada, percebi que havia mais gente do que o habitual. Como não reconheci ninguém, não dei muita bola e segui para o espaço da aula. Poucos minutos depois, aparecem dois rostos conhecidos e... vários desconhecidos. Como a junção das turmas não foi anunciada previamente, deduzi que as alunas estariam ali para repor alguma aula ou coisa do gênero. A chegada do professor se deu com mais alguns minutos decorridos e, com sua instrução, começamos o aquecimento, comandado por uma das alunas da turma adulta.

As alunas da turma juvenil se mantinham em pequenos grupos, olhando por baixo de suas madeixas brilhantes, com olhares um pouco tímidos, mas confiantes, de certa forma, dado que aquele espaço era delas também, em algum momento da semana. Estudavam as pessoas, faziam comentários e encontravam posições que lhes parecesse natural para ocupar a aula que, ao menos hoje, não era completamente delas. Pareciam estar dispostas a se fazer presentes, mas não esqueciam da "hierarquia", imposta pela diferença de idade.

O aquecimento se deu em sala pequena para a quantidade de braços e pernas que eram alongados e esticados, forçados até o limite. Durantes aqueles 60 minutos, pensei por que me sentia julgada? Estaríamos competindo pelo maior alongamento? Isso me pareceu uma bobagem e, tendo vivido essa competição irreal durante a própria adolescência, abandonei a idéia. Estaríamos então comparando, dentro de nossas próprias cabeças, quem estava mais em forma? Quem tinha o cabelo mais bonito e brilhante? Cabelos sempre foram um dos meus pontos fracos. Explicações do porquê seriam monótonas, mas basta dizer que, enquanto as jovens deixavam suas madeixas voarem livremente, emoldurando os rostinhos não tão inocentes, eu optei por duas maria-chiquinhas e faixa de cabeça, que seguravam o cabelo (já curto) longe do rosto e do suor.

Enquanto alongávamos, nossa líder introduzia piadas que quebrariam o clima de tensão, presente devido à co-existência das duas tribos em território, a princípio, neutro. Por um lado, éramos todas iguais – praticávamos a mesma atividade, com o mesmo professor, no mesmo local. Porém, existia uma barreira invisível e indecifrável entre as duas turmas. Em vez de trocarmos experiências e realmente mesclarmos, formamos pequenos grupos de proteção, como se falássemos línguas diferentes e compartilhássemos assuntos diferentes. Poucas vezes durante a aula vi um elemento de um grupo interagir com outro. Em dado momento, uma das jovens pediu para utilizar o aparelho que havia sido designado para um grupo adulto, pois estávamos descansando. "Sem problemas." Com este movimento ousado, me senti na liberdade de fazer o mesmo com o aparelho delas. “Sem problemas.” Nesses momentos de interação, me passa pela cabeça se não existe um medo transformado em cordialidade, de maneira a prevenir atritos desnecessários?

Com o passar da aula, os grupos foram relaxando e, dado que havia espaço para todos, ninguém foi forçado a interagir com quem não desejava. Da mesma forma, ninguém foi privado de praticar a atividade. Porém, não conseguia tirar da cabeça os olhares ameaçadores e, ao mesmo tempo, medrosos e tímidos do início da aula. Seria realmente necessário aquele estranhamento entre membros da mesma espécie? Quem teria decretado a competição e por que havia sido acatada por nós?

Em um momento particular e independente da presença da turma juvenil, me senti realmente adolescente e, tal como quando o era, completamente insegura e desvalorizada (por mim mesma, percebo agora). Em uma turma onde 90% são mulheres, aparece com certa frequência um rapaz. Durante as aulas em que o vi presente, me pareceu que a interação com o resto da turma era realmente de puro coleguismo. Nesta aula em particular, o rapaz chegou atrasado, não participou do alongamento/sessão de críticas silenciosas em sala apertada e não foi designado a nenhum dos grupos de treinamento (aparentemente, separados por idade e/ou habilidade). Poucos minutos depois da sua chegada, chega também outra aluna da turma adulta, que o comprimenta com o diálogo:

"Ah, oi!" *beijinho, beijinho* "Nos conhecemos fora de contexto."
"Pois é." *beijnho, beijinho* "Tudo bem?"
"Estou exausta..."
"Imagino!" *risos*

Na mesma hora, passou pela minha cabeça (além de estranhar o gesto, dado que ninguém ali se cumprimentava com beijinho, beijinho) a imagem de uma festa bombante sexta à noite, onde ele se aproximava dela, de maneira charmosa e cheia de simpatia, e, após alguns minutos de conversa, descobriam que eram colegas de turma e que a impressão de se conhecerem de algum lugar não era afinal somente impressão. Quando um pensamento como esses me ocorre, o que importa para mim é a conclusão que segue: o que tenho a ver com essas pessoas afinal? Compartilhamos o gosto por uma atividade física e estamos na mesma aula, mas tantos compartilham gostos que os fazem se esbarrar pela cidade, com milhões de habitantes. Onde estão as pessoas com as quais eu estaria esbarrando? Seriam meus gostos tão diversos assim? Ou apenas sem rumo nem foco?

Não sei se foi impressão minha, mas este rapaz, com o qual eu acreditava estar desenvolvendo o coleguismo, não pareceu muito disposto a interagir na aula em questão. Sendo assim, após presenciar o diálogo acima e revirar os pensamentos descritos, me afastei física e emocionalmente da situação, pensando que existe sempre uma próxima aula para ser colega, ou mesmo que ele pode nem ter me reconhecido (!!!).

Tendo em vista a pressão do ensaio (do qual eu não participo), o fato da aula terminar tarde (pois começou atrasada) e o meu estado de total descontrole emocional, preferi me retirar antes do “sino tocar”. Agarrei a mochila, me calcei e saí sem olhar pra trás, como um bicho que foge naqueles últimos instantes antes de ser devorado ou ter um colapso que comprometerá eternamente sua interação social.

Respirei aliviada quando já estava longe do espaço da aula, no meio de estranhos em um ponto de ônibus. Segue indigesto, porém, a insegurança que me causaram meia dúzia de adolescentes das quais eu nem fiquei sabendo o nome.

15.11.08

A primogênita

Eu fui a primeira de um total de 10 primos - 3 por parte de pai e 7 por parte de mãe. Deve ter sido um frisson. Mas, bem diferente da emoção de estrear a próxima geração de uma família, é a percepção do impacto de ser o primeiro, o desbravador de fronteiras.

Aos 25, alguns primos poderiam ser meus irmãos e outros poderiam ser meus filhos, o que me leva a concluir que, desde que eu mesma era um bebê, eu convivo com bebês. Não só isso, como também acompanhei alguns momentos de suas mães - alegrias, dificuldades, rotinas. Enquanto criança, tudo era brincadeira. Depois que tomei consciência da diferença de idades, comecei a sentir um pouco de responsabilidade por eles. Infelizmente, não convivo com todos de maneira tão próxima, mas, sempre que possível, tento ser amiga. Um primo é um amigo de graça. Não precisamos fazer muita força, porque ele já é família, então é só questão de adaptação das personalidades.

De qualquer maneira, não foi aos 25 que comecei a achar que algumas coisas poderiam ter sido diferentes caso houvesse familiares na mesma geração que eu, mas mais velhos. Que eu saiba, eu realmente fui a primeira a conquistar alguns marcos da vida – formatura no colégio, faculdade, formatura na faculdade, emprego, namorado. Mas, ainda que estivesse passando por esses momentos, havia sempre algum contemporâneo que me alertava do fato de que eu estava aprendendo tudo ali, na hora, e ele já havia aprendido antes, com alguém, algum primo talvez.

O que isso tudo quer dizer? Sinceramente, não sei. Por outro lado, do topo dos meus 25, eu ainda vejo os meus primos, o que poderiam ser meus irmãos, como crianças sem experiência, como jovens ingênuos. Algo me diz também que estou redondamente enganada! A verdade é que, olhando para trás, eu me vejo como jovem ingênua na idade deles. De certa maneira, ingênua até hoje.

Uma teoria que tenho é a do fator “presença infantil”. Quando existe um bebê ou uma criança no ambiente, todos estão muito conscientes disso e o comportamento é, de certa forma, regulado. À medida que o número de crianças vai aumentando, e que as crianças de ontem viram jovens, a fronteira entre o comportamento adulto e o infantil fica nebulosa. Os adultos passam a conversar entre si, pois as crianças estão entre si também, mas sempre escapa um pedaço de conversa, de lá pra cá e vice-versa, e nisso, lá se vai um pouco de ingenuidade.

Durante uma conversa sobre qual seria a comemoração escolhida para o aniversário de 19 anos de uma prima, a mãe sugeriu uma festa. Ela descordou, dizendo que já havia feito duas festas e que achava que, esse ano, preferiria juntar poucos amigos e... sair para beber. Depois de engolir em seco e respirar torto, eu comecei a pensar nessa menina, que carreguei no colo quando nem eu mesma tinha tamanho para carregar alguém no colo, sentada em uma mesa de botequim, bebendo e rindo.

E aí lembrei de mim aos 19 anos. Segundo ano de faculdade, nenhuma chopada no currículo, primeiro namoro recém começado. Eu não tinha coragem de pedir um drink só para mim, quem dirá bebê-lo! Era vergonha da inexperiência. Não me permitia errar, nem mesmo quando eu sabia que era a primeira vez.

Poucas horas depois dessa conversa dos 19 anos, estávamos almoçando e ela identificou um licor (por nome!) apenas cheirando-o. Na minha casa, bebida nunca foi escondida. Eu sempre provei o que estava ao meu alcance e com consentimento paterno. Mas nunca cheguei ao ponto de identificar uma bebida com tanta precisão!

Um papo que sempre me deixa inquieta sobre minha experiência de vida é a quantidade de relacionamentos até a presente data. Como comentado anteriormente, meu primeiro começou no segundo ano de faculdade. Um pouco tarde, se comparado à média dos jovens. Primeiros beijos, primeiros amassos, primeiros riscos... De alguma maneira, eu consegui empurrar isso tudo para mais tarde do que a média. Será que os adultos me deixaram ser criança por muito tempo? Será que em algum momento da minha infância eu pulei um passo e passei a ter uma cabeça “adulta” em um corpo jovem?

Perguntas que não serão respondidas e fatos que não podem ser mudados.

(Este texto termina aqui, por falta de uma conclusão melhor. Não estou satisfeita, mas vou me permitir essa falha.)

Esperando Aviões - Vander Lee

Meus olhos te viram triste
Olhando pro infinito
Tentando ouvir o som do próprio grito
E o louco que ainda me resta
Só quis te levar pra festa
Você me amou de um jeito tão aflito
Que eu queria poder te dizer sem palavras
Eu queria poder te cantar sem canções
Eu queria viver morrendo em sua teia
Seu sangue correndo em minha veia
Seu cheiro morando em meus pulmões
Cada dia que passo sem sua presença
Sou um presidiário cumprindo sentença
Sou um velho diário perdido na areia
Esperando que você me leia
Sou pista vazia esperando aviões
Sou o lamento no canto da sereia
Esperando o naufrágio das embarcações

Ao Imperador

Já disse a canção... "Você apareceu do nada... E você mexeu demais comigo."

E pára por aí.

Tanta gente aparece do nada, mas, de alguma forma, foi você que conseguiu mexer mais até agora. A triste notícia é que mexeu de uma forma confusa, desconfortável e amarga. As lembranças que tenho suas são turvas, tal como a imagem que eu conseguia fazer de você. Havia sempre algo impedindo o entendimento, a compreensão de quem você era e o que queria. Como eu tentei... E você deve saber que tentei... Alinhar-me a você, para ter um momento de encaixe, algo que seria natural. Nunca foi natural. Após cada fato vivido, era como acordar de um desmaio - não sei como cheguei ali, nem o que aconteceria depois.

É bom saber que você nunca lerá isso.

Preciso me libertar. Preciso por um fim ao império que se estabeleceu dentro de mim. Não existe espaço para um império neste coração. É apenas humano e precisa dedicar espaço para ele mesmo. Precisa amar-se e venerar-se. Um império é grande demais para mim; é forte demais e complexto demais. Quero simplicidade. Quero compreender até onde for possível e, quando chegar no meu limite, conseguir conviver com isso. Mas você sempre foi o meu limite, desde o início.

O que possuo agora são as marcas da passagem da sua cavalaria. Marcas que eu não consigo liberar. Chego a gostar delas, apesar de me lembrarem de você. Me causam verdadeiro aperto, um congelamento no corpo, esqueço de soltar o ar que inspirei. E tenho que inspirar bem fundo para conviver com essas marcas. São coisas lindas que você me mostrou, tão dignas de um imperador. Mas, quem diria, nem mesmo você foi capaz de aguentar tanta força. Chegou, apossou e... fugiu. Me responde agora: como fica tudo aquilo que um dia você chamou - ou quis chamar - de seu? Ficaram para trás, fitando a trilha empoeirada que deixou quando partiu. Empoeirada mesmo, aliás, pois nunca se sabia se estava voltando ou se tinha ido para sempre. Abandonados.

Você me mostrou uma das mais belas composições que conheço. Algo simples, real e verdadeiro. E aí então disse que essa deveria ser a sua canção. Galanteador? Eu não achei. Preferi acreditar que estava me dizendo a verdade e que, aquele que tantas vezes fugiria, era capaz de sentir profundamente e identificar-se com aquela beleza, aquela realidade. Às vezes, escuto essa canção e não me diz nada. Noutras, é capaz de parar o mundo, limpar minha cabeça de todos os pensamentos e me remeter somente a você.

Preciso me libertar.

Já passo tempo demais pensando em você. Quero passar um dia - são somente 24 horas! - sem lembrar seu nome. É tão difícil. É muito difícil esquecer o nome do imperador, aquele que possui o todo, que manda, que decide. Você decidiu demais já. Governou como mandavam as suas regras e esqueceu de pensar em quem estava mandando. Não sinta pena. Ha! Que ridículo. Como se você sentisse pena de alguma coisa. Alguém tão cheio de si, um fugitivo, não seria capaz de lembrar que existe alguém além da próprio fronteira corporal.

De você não quero nada. Mas, já que passou por essa terra e dominou-a, apossou-se dela, tenha a decência de tratá-la ou libertá-la. Preciso de uma carta de alforria. Preciso de um ponto final. Por mais que isso seja difícil de entender, um fugitivo não termina uma história. Ele a deixa inacabada, parada, sem rumo. Os personagens dessa história têm suas vidas e próprias vontades, mas alguns se recusam a pensar que a interação cessa de maneira tão brusca e sem motivos.

Você tem seus motivos, claro. Sempre os teve. E nunca os compartilhou. Eu posso apenas adivinhar o que se passava na sua mente para que tomasse cada decisão. Mas nunca terei certeza. Não me diz respeito, na verdade.

Não quero ser uma fugitiva também. Não quero correr até sair dessa história. Essa história é um pedaço da minha vida agora e, como disse a música, mexeu demais. Talvez não tenha sido sua intenção. Nesse caso, estou sozinha para me virar com tudo que aconteceu. Você não me deve nada e eu quis te dar demais. Será que você fugiu para não aceitar mais? Achou que ficaria na dívida?

Por isso escrevo hoje. Para pedir que pague o que deve, liberte o que prendeu e aceite o que é. Eu tenho que continuar buscando uma maneira de deixar bem de lado as lembranças que tenho. Por que insistem em reiluminar-se? São amargas, inquietas, tortas. E, provavelmente, não te tormentam tanto quanto a mim. Pois bem, tome aqui um punhado de lembranças. Guarde com você, porque o meu espaço acabou.

Quero entrar em outra história.

5.11.08

A esperteza brasileira

Fila de banco - uma forte concorrente ao prêmio de maiores provocadores da ansiedade e do tédio.

A fila do banco sempre parece andar mais devagar do que poderia, não estivessem os caixas com tanta má vontade; não fosse o ambiente tão inóspito; não fosse tão difícil para o cliente da frente entender o que lhe está sendo dito.

Para completar a maravilha que é a fila do banco, surgiu a malandragem brasileira, que azeda qualquer situação para o ser humano mais normal, dotado (ou munido) apenas de ética e moral comuns. A estratégia consiste em entrar na agência, mirar no último coitado parado em pé na fila e atirar, de cara lavada: "Olha, eu estou aqui atrás, mas vou ali [inserir ação da lista abaixo] rapidinho e já volto. Segura pra mim o lugar."

"Vou ali" poder ser para:
- Sacar dinheiro no caixa automático,
- Falar com a gerente,
- Tirar uma dúvida com o segurança,
- Ir ao banheiro,
- Comprar uma bala de menta ou mesmo,
- Entrar em outra fila!

Ou seja, o esperto quer estar presente em dois lugares ao mesmo tempo (se não mais!). Não!, isso não é possível! O conceito de filas implica em esperar. Não é possível otimizar o tempo dentro do banco pedindo para um mané guardar o seu lugar na fila. Ele não pode fazer isso por um simples motivo: o mané é uma só pessoa. Ele pode representar apenas um ser humano sobre este globo terrestre. Sendo assim, o dever de cada um é aceitar que banco é uma perda de tempo e viver a perda de tempo, de coração aberto.

Quer uma dica? Entre no banco sabendo o máximo possível daquilo que você pretende fazer. Quer abrir uma conta? Leve TODA a documentação. Quer fazer um depósito? Aprenda a usar os caixas automáticos. Quer pagar uma conta? Pague pela internet. Somente assim será possível diminuir as filas de espera no caixa e as perguntas simples respondidas pelos gerentes (que têm suas próprias filas de espera!).

Não me levem a mal, mas não, eu não posso guardar o lugar de ninguém na fila! Eu mesma gastei preciosos 30 minutos do meu tempo catando respostas e emitindo boletos para então ficar mais 15 minutos parada na fila. E se eu fiquei parada, o esperto e a esperta vão ficar também. É isso ou mudar de profissão - vou virar representante oficial de pessoa física, ou seja, guardadora de lugar.

2.11.08

Curta

Estava andando na rua hoje, trajando um chapeuzinho de pescador, daqueles que foi moda há uns anos e que ainda pode ser visto nas cabeças dos descolados e estilosos frequentadores de boites em NY. O propósito do meu chapéu era o original - proteção solar - mas tudo bem, compunha um estilo também.

Ao atravessar a rua, vi uma figura trajando calça social "descolada", camisa escura e... um chapéu social! Fazia um belo estilo e chamava a atenção, especialmente considerando o céu azul anil e o calor de quase 40o. Praticamente impossível essa pessoa não ter me visto também, dado que não havia mais ninguém atravessando a rua a 3m de distância. Como eu nunca uso chapéu (salvo bonés para pedalar), senti que nossos assessórios de cabeça fizeram uma conexão psíquica.

Nesses momentos, não sei o que fazer. Não sei se devo fazer algo, mas sinto que gostaria. Gostaria de ter a desenvoltura e desinibição para abrir um largo sorriso, despretencioso, que fosse apenas reconhecer a conincidência ali vivida e viver uma gargalhada. E com isso não espero resposta, mas apenas uma forma de expressão.

Sem contar que pessoas que abrem sorrisos (ainda que sem razões) devem ser mais felizes e alegres do que aquelas com olhos envergonhados, que viram a cabeça rapidamente para o outro lado, evitando o olhar alheio.